Esta história me foi repassada por minhas fontes na Ordem da Grande Fênix, pois tem alguma relação com eventos que envolveram sociedades secretas adversárias. Na qualidade de cético, preferi reservar meu julgamento, como é hábito meu em relação a tudo que é alegado por essa Ordem, ou sobre ela. Acresce que a narrativa envolve fatos nunca divulgados, relativos a certos personagens históricos, embora tais fatos sejam consistentes com os comportamentos conhecidos dos ditos personagens. Recentemente, entretanto, certos debates ocorridos no Orkut passaram a conferir-lhes alguma credibilidade, como se poderá constatar ao longo de seu desenrolar.
Os primeiros relatos disponíveis datam do final do século VII A.C., século marcado por uma das mais misteriosas entre as alegadas Encarnações da Fênix. O narrador é um mercador fenício que se engajara na tripulação de uma frota fenícia, contratada pelo Faraó Necao para fazer a circunavegação da África. Moveram-no certas informações de que dispunha sobre as riquezas que poderiam lá ser encontradas, informações que obtivera de sua corporação de mercadores, um dos ramos do que hoje chamamos de Confraria de Csífodas.
Quis Baal, porém, que a vida de nosso mercador tomasse outro rumo. Quando singravam ao largo da costa do atual Quênia, o mercador, sempre atento a toda espécie de curiosidade, ficou intrigado com um prato que os escravos africanos pareciam comer com grande deleite. Era uma espécie de pasta apimentada de farinha de arroz, incrementada com camarões e pedaços de peixe, e feita com um óleo que os escravos disseram ser extraído de certa palmeira. Esse óleo dava ao acepipe o sabor e a cor amarela peculiares, assim como o aroma que tentou nosso mercador a degustá-lo. O que os escravos não avisaram era que o prato só se recomendava para quem estivesse acostumado, e o mercador, mais habituado aos finos azeites do Mediterrâneo, não foi capaz de digerir o tal óleo de palmeira. A subseqüente diarréia foi tão devastadora, que os companheiros preferiram deixá-lo em uma aldeia costeira; não só por julgarem que o balanço do mar lhe agravava o quadro, mas porque o cheiro insuportável ameaçava o êxito da expedição.
Deram ao feiticeiro local alguns presentes, para que cuidasse do infeliz mercador. Sendo um homem honesto e bondoso, o velho feiticeiro o tratou com infusões de certas ervas amarguíssimas, que terminaram por realmente fazer efeito. Aos poucos, nosso personagem foi voltando à normalidade, e seu cérebro de empreendedor recomeçou a funcionar, vislumbrando possibilidades comerciais, mesmo perdido em tão remoto lugarejo.
Sendo assim, não pôde deixar de notar que o feiticeiro, embora de idade avançada, mantinha atividade sexual razoavelmente vigorosa, inclusive empregando-a com freqüência para exorcizar mulheres tidas como possuídas por maus espíritos. Morando na casa do feiticeiro, pôde também observá-lo quando tomava banho de bica, constatando a dimensão do instrumento de trabalho do velho, notável mesmo em relação à fama que os africanos possuíam.
Astuto como geralmente são os Confrades de Csífodas, o mercador deduziu que o feiticeiro possuiria algum segredo especial, já que se mostrara tão competente na manipulação das ervas, e logo calculou as possibilidades comerciais de tal segredo, no mundo mediterrâneo sempre ávido de prazeres. Cuidadosamente, tratou de colocar o assunto nas longas conversas que mantinha com o velho, para entreterem-se nas noites de folga deste.
O feiticeiro, igualmente astuto, percebeu logo a intenção de seu hóspede, e explicou-lhe que fizera um juramento de não divulgar tal segredo, embora dele pudesse usufruir. Mas, em nome da amizade que tinham cultivado, poderia ensinar-lhe a fonte original do segredo, onde talvez, com seus notáveis poderes de convencimento, conseguisse igualmente o precioso conhecimento. Advertia, porém, de que o caminho era longo, acidentado e cheio de perigos. Os últimos mediterrâneos que lá tinham ido haviam sido emissários de Ramsés II, graças a cujos esforços o grande Faraó foi capaz de viver quase noventa anos, mais do dobro da vida normal da época, assim como manter um vigor apto a produzir mais de uma centena de filhos.
A perspectiva de lucros fantásticos falou no coração do mercador, mais alto do que todos os apelos da prudência. Assim, investiu parte da fortuna portátil que ainda trazia, para montar uma expedição ao local indicado pelo velho feiticeiro: um vale desconhecido, situado na região que hoje é fronteira entre o Quênia e Uganda. Nesse vale, habitava a obscura tribo dos Gigantes Bundar, detentores, segundo entendeu o mercador, do segredo da Vida Longa.
Muitos meses de tribulações se passaram, todas vencidas pelo denodo do mercador e de seus dedicados carregadores, escolhidos a dedo pelo feiticeiro. Finalmente chegaram à morada dos Bundar. Felizmente, esses gigantescos nativos eram de índole pacífica, e viviam de pastoreio e agricultura rudimentares. Isolados de outros povos, suas atividades bélicas se resumiam a encenações, nas quais se cobriam de pinturas de guerra, e praticavam vários tipos de lutas e evoluções. O clima quentíssimo do vale convidava os Bundar a usar pouca ou nenhuma roupa, e logo o mercador constatou que o gigantismo se estendia a todos os aspectos.
Cativando os nativos com as miçangas e os espelhinhos que carregava para esse fim, o mercador pediu que o levassem ao chefe, através do intérprete que o feiticeiro também incluíra na caravana. Os nativos riram, informando que não tinham propriamente um chefe, mas apenas uma espécie de líder, como se fosse o maior entre semelhantes. Mas, certamente, poderiam levá-lo ao Vida Longa.
Lá se foi o mercador à cabana do líder, esperando encontrar um idoso patriarca, com os anos da vida magicamente alongados por algum misterioso elixir. Surpreendentemente, foi recebido por um homem ainda jovem e sorridente, diferente dos demais apenas por ser ainda um pouquinho maior. Depois de trocados presentes e amenidades, seguiu-se agradável conversação, durante a qual o mercador indagou ao líder a razão de seu nome. Aparentaria ele idade muito menor que real, graças a algum sortilégio?
Vida Longa sorriu ainda mais largamente e disse que, de fato, os Bundar levavam um estilo de vida simples e salubre, que lhes dava uma expectativa de vida razoável, mas nisso nada havia de mágico. Se permanecesse com eles algum tempo e fosse julgado merecedor de confiança, poderia aprender esse e outros segredos. Nesse ponto da conversa, Vida Longa alegou que estava muito quente, e convidou o visitante para refrescar-se num lago próximo. Lá chegando, despiu-se da tanga, e o mercador imediatamente intuiu por que razão Vida Longa fora escolhido líder.
Já na água, Vida Longa convidou o mercador a despir-se e apreciar também a água refrescante. O mercador, ressabiadíssimo, recusou polidamente, alegando que o povo dele tinha tabus severos contra a nudez. Vida Longa apenas sorriu mais uma vez, e disse que entendia as inibições de outros povos, mas eles, os Bundar, eram completamente desprovidos de preconceitos.
Depois desse episódio, o mercador achou prudente declinar da oferta de hospedagem na cabana de Vida Longa, alegando que não queria incomodar, e que roncava bastante, o que perturbaria o repouso de seu gentil anfitrião. Mas, movido pela ambição do sonhado ganho, continuou a freqüentar a companhia do líder, tratando de ganhar-lhe a confiança com lisonjas sutilmente proferidas, e de aprender o idioma dos Bundar.
Finalmente, chegou o dia em que Vida Longa resolveu contar-lhe o primeiro segredo. Levou a certa árvore na floresta o sempre desconfiado mercador. Mas lá chegando, limitou-se a apontar-lhe um ninho de vespas.
— Como o amigo já deve ter percebido, os varões de nosso povo são naturalmente bem dotados em seus atributos físicos. Assim, é natural que seja escolhido como líder aquele que tem o atributo mais destacado, e que o líder retribua a confiança dos seus, colocando esse atributo a serviço dos liderados, sempre que para tal é convidado. Mas, como deve saber um homem da cultura do amigo, dimensões gigantescas tendem a conflitar com a potência, pois objetos maiores têm mais dificuldade em vencer a permanente atração da Mãe Terra. Para isso, precisamos periodicamente de uma pequena ajuda de nossos amigos insetos.
Imediatamente, Vida Longa retirou da árvore o ninho das vespas, que começaram a zumbir furiosamente. Rapidíssimo, desfez-se da tanga, e introduziu o membro no apavorante ninho. Diante do mercador pasmo, manteve-o por alguns minutos, sem emitir um gemido, embora o rosto se contorcesse num espasmo doloroso. Finalmente, jogou o ninho fora, envolvendo o membro numa cataplasma que trouxera numa bolsa.
— Eis aí, meu amigo. Dentro de poucos dias o outro amigo aqui estará novamente apto ao trabalho. Este ritual, repetido a cada poucas luas, garante-lhe a disposição firme, sempre que seus serviços são requisitados. Como bônus, sai ele da prova cada vez mais engrandecido. E, finalmente, o veneno de nossas amiguinhas me imuniza contra muitos males, e mantém minha saúde, sempre necessária para o tipo de atividades que devo exercer em benefício de meu povo.
Por maior que fosse o espanto, o mercador não perdeu o sangue frio e o tino comercial de todo bom comerciante fenício. Pediu a Vida Longa um punhado de vespas e um pouco da cataplasma, pois gostaria de fazer experimentos. Afinal, os fenícios eram conhecidos pela perícia na manipulação de tinturas, perfumes e ungüentos, como provavam alguns dos presentes que trouxera para Vida Longa.
De posse das amostras, o mercador triturou as vespas e coou-as, extraindo delas um caldo de cheiro irritante, que misturou com a cataplasma, de modo a fazer um ungüento. Chegada a ocasião em que Vida Longa deveria novamente submeter-se ao doloroso ritual, nosso fenício propôs-lhe um experimento, que consistia em aplicar esse ungüento ao membro, em lugar de enfiá-lo na caixa de vespas. Assim foi feito, e Vida Longa pôde constatar que o resultado era igualmente eficaz, embora bem mais prático e menos dolorido.
Agradecido, Vida Longa forneceu ao mercador uma pequena colônia de vespas, e ensinou-o a cultivá-las, assim como lhe deu mudas das ervas usadas na feitura da cataplasma. Forneceu-lhe também mantimentos e uma escolta para que pudesse chegar até as cataratas do Nilo, de onde poderia viajar de volta a Tiro, já na condição de protegido do Faraó.
Na véspera da partida, partilharam uma boa mesa de caças, e o mercador resolveu perguntar ao anfitrião se havia algo de verdadeiro no boato que entreouvira, segundo o qual o líder teria milhares de anos de vida. Foi mais uma ocasião para um largo sorriso de Vida Longa.
— Meu bom amigo, posso contar-lhe também esse segredo, já que partirá de volta a sua distante terra. Nós mesmos espalhamos tais boatos para provocar respeito. Na realidade, tenho pouco mais de trinta verões, e sou líder há pouco mais de dez. Dentro de uns dez anos deverei passar meu posto para um jovem que será devidamente escolhido. Esse passará então a ser o novo Vida Longa. Eu mesmo me tornarei um ancião, como meus dois antecessores imediatos, que frequentemente me honram com seus conselhos. A lenda de nossa imortalidade infunde temor a possíveis inimigos, e é talvez a principal causa da paz em que vivemos.
Como o leitor arguto deve ter percebido, a lenda do Fantasma que Anda foi inspirada nesse truque, embora ninguém saiba ao certo se o Fantasma vive mesmo na África.
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