Perigo na Zona Rosa

Antes que o leitor me estranhe, devo esclarecer que a Zona Rosa da Cidade do México não é uma região gay, embora existam por lá estabelecimentos do gênero para essa clientela, o que apenas mostra que o México mudou, pois, antigamente, não se admitia sequer que pessoas com essa preferência existissem no país. Basicamente, é uma região com muitos bares, lojas e turistas, e o nome vem da quantidade de prédios dessa cor.

Sentei-me num bar na tal praça, e fiquei bebericando uma boa cerveja mexicana, enquanto aguardava o contato de Gloria. Na mesa ao lado, um grupo de estudantes discutia os rumos políticos da América Latina; por que em tantos países da região a política tinha caminhado para a esquerda, e por que isso ainda não tinha acontecido no México, embora a esquerda mexicana tivesse bom desempenho há várias eleições. A certa altura, perguntaram de onde eu era, e, sabendo tratar-se de um brasileiro, insistiram que eu fosse para a mesa deles, explicar certos aspectos da política brasileira.

Por insistência dos estudantes, acabei deixando a cerveja e passando para a bebida deles: tequila com sangrita, um suco salgado e apimentado de tomate, que não se mistura com a tequila, mas toma-se alternadamente. Conversa vai, conversa vem, as horas se passaram, e Gloria não apareceu, até que resolvi ir embora, lá pela uma hora da madrugada.

Eu tinha levado uns vinte minutos a pé do hotel até aquele lugar, e resolvi voltar pelo que achava ser o mesmo caminho. O problema é que a tequila tinha sido meio demais, e, depois de alguns minutos, eu já não sabia onde estava, exceto que era um lugar com muito pouco movimento. Comecei a ficar receoso, pois não sabia a quantas andava o problema de segurança naquela região da cidade. E mais receoso porque não sabia se devia ter mais medo de eventuais ladrões ou de sei lá que inimigos da Grande Fênix pudessem estar à minha espreita.

Foi quando notei que um carro escuro, que eu tinha percebido alguns minutos com o rabo do olho, continuava à mesma distância. Como eu estava andando, isso significava que ele devia estar me seguindo. Apressei o passo, mas o carro escuro continuou a manter a mesma distância, nem chegando perto, nem ficando para trás.

A situação estava ficando aflitiva, quando de repente um luxuoso carro esporte vermelho parou a meu lado, cantando pneus. Do lado do passageiro, que era o lado onde eu estava, a porta se abriu, e vi que a motorista era uma loura, que gritou para que eu entrasse. Hesitei, sem entender do que se tratava, e saiu do banco de trás alguém que me empurrou com força para dentro do carro e bateu a porta. O carro arrancou, cantando pneus de novo.

Olhei para a motorista, uma beldade loura de cabelos cacheados, nada parecida com o tipo convencional de mulher latina. Depois de alguns segundos, entendi: era Gloria León. Claro. Artistas mexicanas de telenovelas geralmente têm aparência européia, até nórdica; raramente uma aparência que possa ser considerada como tipicamente mexicana. Olhei então para o banco de trás, para ver o homem que me tinha empurrado para dentro. Não era um homem, e sim outra mulher, esta sim, morena, de tipo convencionalmente latino, exceto pelo corpo de esportista. Gloria não se deu ao trabalho de se apresentar, supondo, evidentemente, que eu a reconhecera, mas apontou para a outra:

— Luz, minha irmã gêmea. Não idêntica, é claro.

De fato, as duas eram bastante diferentes, exceto num detalhe: os olhos, que eu diria... felinos. E nos medalhões em forma de grifo, que ambas portavam. Mas não tive tempo de raciocinar muito sobre isso, pois Gloria acelerava violentamente o carro e já passava o primeiro sinal vermelho, coisa com a qual também não tive tempo de me assustar, pois o primeiro tiro atingiu o carro. Gloria sorriu para mim:

— Sem problemas. É blindado.

Olhei de novo para trás, e vi que os tiros partiam do carro escuro, que também acelerava em nossa perseguição. Luz estava ajoelhada no banco traseiro, olhando pelo vidro traseiro, e havia uma metralhadora no banco. Achei que ela fosse abrir a janela e revidar os tiros, mas apenas olhava com um binóculo, seguro na mão esquerda, enquanto a direita empunhava algo que parecia um celular. Disse então:

— É Cornelio mesmo.

Gloria respondeu:

— Ótimo. Prepare-se.

Os dois carros corriam agora por uma avenida praticamente deserta, e os tiros continuavam, ricocheteando na lataria ou nos vidros de nosso carro. Dei-me conta então de que nosso perseguidor devia ser Cornelio Escobar, vulgo El Cabrón, um dos mais poderosos e perigosos traficantes colombianos, com muitos negócios no México, ponto de acesso a seu mercado americano.

Por que um gângster tão poderoso estava pessoalmente em nossa perseguição? Lembrei-me então de Londres, quando eu me encontrara com o mestre Fuk Yu-meng no restaurante de Fuk Yu Two. Na ocasião, o sobrinho do mestre servia de anfitrião para uma negociação entre Cornelio Escobar e o russo Mafyey Mafyeyev, intermediada por Don Tommaso Menefrego. Provavelmente, drogas por armas.

Quem quer que estivesse caçando os líderes da Grande Fênix tinha mandado os piratas do Amazonas atrás de Donald Cockburn, os Dragões Vermelhos atrás de Da Gong-ji, Don Tommaso atrás de Ibrahim al-Dajaj, e agora Cornelio Escobar atrás de Gloria León. O creme do crime, nada de arraia miúda. Sempre seguindo meus passos, o que era pior.

Aparentemente, e até estranhamente, Gloria estava levando a perseguição para locais cada vez mais desertos. Agora só estávamos nós e eles na avenida. Luz então gritou:

— Vão usar uma bazuca. Tem que ser agora.

E apertou uma tecla no tal celular. O carro de Cornelio Escobar se transformou em uma bola de fogo, e a onda de choque balançou o nosso. Levada pela inércia, a bola de fogo se chocou com uma árvore. Gloria e Luz bateram as palmas das mãos, como jogadoras comemorando um ponto.

Depois, Gloria fez um retorno e me disse:

— Bem, chega de emoções por hoje. Professor, agora vamos levá-lo de volta ao hotel. Lá estará seguro, pois enchemos o lugar de Falcões. Eles estão em todos os apartamentos em volta do seu. De manhã, teremos uma longa viagem pela frente.

Já recobrando o fôlego, perguntei:

— E quanto ao aconteceu há pouco, nem uma explicação rápida?

— Tem razão, Professor. Veja, aqui no México costumamos dormir tarde. Podemos ficar um pouco no bar do hotel e tomar uma cervejinha enquanto conversamos.

Achei uma boa idéia, pois os sustos tinham conseguido evaporar toda a tequila bebida anteriormente, e uma cervejinha certamente me ajudaria a ficar mais calmo, para depois dormir um pouco melhor. Uma vez instalados no bar do hotel, comecei comentando o fato de que mais uma vez um figurão do crime se envolvia nos atentados contra os líderes da Grande Fênix. Gloria respondeu:

— De fato, aprendemos a lição das tragédias anteriores. Desta vez, fizemos um minucioso trabalho de inteligência. Não só os nossos Falcões, mas principalmente minha querida irmã e as colegas dela.

— Colegas? perguntei.

Luz respondeu:

— Já ouviu falar de nós, Professor. Um nome popular que nos dão é o de Falange Felina. Uma corporação mercenária, na qual todas as combatentes são mulheres, especializadas em infiltração, espionagem, dissimulação e trabalhos sorrateiros em geral.

Imediatamente me lembrei de algo que achei engraçado:

— Como a Guarda das Amazonas de Khadafi?

— Para dizer a verdade, Professor, elas são uma espécie de franquia nossa. Foram especialmente preparadas e treinadas por nós.

— Então, por favor, responda-me uma curiosidade: por que logo um líder muçulmano que se diz profundamente religioso teve a idéia de formar um corpo de guarda-costas inteiramente feminino?

— Inicialmente, ele pretendia formar uma companhia de Enviados de Asmodeu, na tradição dos grandes califas e sultões, que ele sempre ambicionou emular. Mas um sábio imã que lhe servia de conselheiro lembrou que o Islã atual, ao contrário do que acontecia na Idade Média, tende a ser intolerante com os homossexuais, e isso poderia trazer problemas.

— Principalmente, completou Gloria, porque o Khadafi já leva certo jeito. Ficaria ainda mais falado.

Disse eu:

— Você está sendo muito rigorosa, moça. Tenho um amigo que tem um Crivo de macheza, mas pelo jeito, você não fica devendo.

As gargalhadas serviram para relaxar de vez o clima, e acabar de descontrair a conversa. Daí em diante, embora elas continuassem a me chamar de Professor, o tom da conversa ficou completamente informal, e o Usted foi completamente substituído pelo tu.[1] Luz completou a historinha da guarda feminina de Khadafi acrescentando que o tal sábio mulá, conhecedor dos feitos da Falange desde o final da dominação moura na Espanha, quando a Inquisição Espanhola começou a mostrar as garras, aconselhou-o a procurar essa corporação, tão competente quanto os Asmodeus nos ofícios guerreiros, e mais conveniente não só para a imagem do líder líbio, como adequada a seu estilo um tanto exótico e misterioso.

Gloria sugeriu que deixássemos para o dia seguinte o assunto da Falange Felina, sobre o qual Luz teria muito a contar. Voltando à questão do atentado que estava sendo preparado contra ela, disse que tanto a inteligência dos Falcões quanto a da Falange confirmaram o que já se suspeitava: se Don Tommaso tivera que voltar à Itália, arriscando-se à prisão perpétua, para cuidar pessoalmente de Ibrahim al-Dajaj, era de se esperar o envolvimento de Cornelio Escobar, o mais perigoso e violento dos traficantes da América Latina, em um atentado que deveria acontecer no México. Com a facilidade adicional de que Cornelio, embora colombiano, passava boa parte de seu tempo em território mexicano, cuidando do trânsito de sua mercadoria para os Estados Unidos, e mantendo uma vasta rede de corrupção que envolvia muitos políticos e policiais.

Luz acrescentou:

— Nesse ponto, entramos em ação. Lembra-se de El Ricardón?

Claro que eu me lembrava. Naquele restaurante chinês em Londres, o mestre Fuk Yu-meng tinha que contado que, enquanto Cornelio Escobar negociava naquele local com os outros mafiosos, sua mulher fazia uma expedição de compras ao Harrod’s, acompanhada pelo fiel e avantajado guarda-costas, conhecido por esse apelido. Diziam que era brasileiro e se chamava Ricardo Bueno Pinto. Luz continuou:

— Pois então. Uma de nossas especialidades de guerra encoberta é o emprego de técnicas de sedução. Uma de nossas operadoras se aproximou dele, e, dentro de pouco tempo, tínhamos material suficiente para uma boa chantagem. Pode parecer estranho, mas a mulher de Cornelio é muito ciumenta, e exige absoluta fidelidade dos amantes. Se visse as fotos que tínhamos conseguido, certamente acusaria El Ricardón de lhe ter faltado ao respeito, e Cornelio, que acredita piamente em tudo que a mulher lhe diz, certamente aplicaria um daqueles castigos terríveis que só ele sabia imaginar.

De fato, o apelido de El Cabrón pelo qual o famoso traficante era conhecido, e, que tecnicamente se devia à barbicha de bode que usava, na realidade aludia a sua famosa complacência marital. E me passou pela cabeça se a tal operadora felina não seria a própria Luz. Ele pareceu adivinhar meu pensamento, pois disse:

— É claro que não fui eu quem cuidou pessoalmente de El Ricardón. Eca! Aquele sujeito é de nível muito baixo, e, modéstia à parte, esse tipo de serviço não precisa de meus talentos. Na realidade, a operadora foi uma estagiária. Estagiários às vezes têm que se encarregar dos serviços desagradáveis. Mas, o que interessa é que El Ricardón passou a nos fornecer informação bastante detalhada sobre os movimentos do patrão. O que ele não sabia pessoalmente, tratava de se informar, pois ele pode ser brega, mas burro não é.

Gloria acrescentou:

— Além disso, ver Cornelio Escobar debaixo da terra também seria bom negócio para ele. Livrava-se de um marido que, por mais crédulo que fosse, era extremamente perigoso, e, supondo-se que a viúva consiga por as mãos em boa parte da fortuna dele, é Ricardón quem mais vai usufruir.

Contou então a parte mais desconfortável para mim, ou seja, enquanto Escobar achava que me estaria usando como isca para apanhar Gloria, o que acontecia era exatamente o oposto. No momento em que saí daquele bar na Zona Rosa, os mafiosos começaram a me seguir, esperando que eu os levasse até Gloria. O que aconteceu, mas não como eles pensavam, pois, como disse Luz:

— Nesse ponto, sim, houve algo que precisei fazer pessoalmente. Só uma Felina do mais alto grau conseguiria colocar uma bomba naquele carro, no momento exato, pouco antes de saírem para a perseguição.

Perguntei por que uma tropa de Falcões não tinha participado da cilada, para maior segurança. Gloria respondeu:

— Participaram, só que não ostensivamente, pois Cornelio desistiria, se visse que tínhamos apoio, e queríamos resolver o problema de uma vez por todas. Eles estavam muito bem camuflados, como estão neste momento aqui no hotel, e só interviriam caso alguma coisa desse errado.

E Luz acrescentou:

— E aquela metralhadora no carro era também just in case. Mas não se assuste, Professor, sei usá-la muito bem.

Nesse ponto, Gloria disse que estava na hora de me deixarem descansar um pouco, pois, de manhã, tínhamos nossa viagem a fazer. Perguntei aonde íamos, e ela disse:

— A um lugar muito agradável: a Riviera Maia. Como Ibrahim al-Dajaj já lhe contou muita coisa sobre a Encarnação da Águia, é uma boa hora para ouvir a história da boca de um dos maiores especialistas do mundo em cultura maia: Donald Cockburn.

Exclamei:

Donald Cockburn? Ele está vivo?

Gloria respondeu:

— No caso, trata-se de Donald Cockburn, Sênior. Nosso pai. Quanto a nosso meio-irmão, infelizmente não há indicações de que ele tenha sobrevivido.

Com isso, as irmãs se despediram, e tratei de ir dormir. Foi uma noite agitada. Sonhei que Sobek, um gigantesco deus com cabeça de crocodilo, saía do Nilo e me seguia. Até que apareciam Hathor e Bast (ou seriam Nefertari e Isetnofret?), e as deusas incineravam Sobek numa bola de fogo.

[1] Provavelmente, muitos leitores já sabem disso, mas é bom notar que, em espanhol, Usted corresponde a o Senhor, e tu corresponde a você.

     

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