A terra aonde chegamos tinha praias muito belas, e plantas e animais diferentes dos que conhecíamos. E nativos diferentes de qualquer povo conhecido; as peles eram de cor semelhante à dos egípcios, mas os olhos eram mais parecidos com os dos povos do Leste da Ásia. Falavam línguas muito diferentes de qualquer idioma que tivéssemos ouvido, e andavam nus ou quase, como alguns dos povos das partes mais quentes da África. No máximo, usavam enfeites, muitas vezes feitos de penas; sinal, talvez, de que algum dia a Nobre Ave passara por ali.
Geralmente ficavam desconfiados conosco, e se espantavam com a cor negra dos africanos e a cor branca dos gregos e fenícios, principalmente daqueles que tinham cabelos ou olhos claros. Mas geralmente se agradavam dos enfeites e espelhos oferecidos por nossos hábeis mercadores, e em troca nos forneciam carne e peixes, que tratamos de salgar para levar como mantimentos. Ofereceram também uma farinha tirada de uma raiz, mais grosseira que a do trigo, mas que descobrimos que podíamos com ela fazer pães, até bastante saborosos. Com isso, pudemos recuperar o tempo da travessia do oceano, pois não precisamos parar para semear, e, de qualquer maneira, nossos agricultores concluíram que aquele clima quente e úmido não era adequado para o trigo.
Quanto aos animais, vários tinham carnes bastante saborosas, principalmente alguns que se assemelhavam a coelhos grandes, os que tinham uma espécie de armadura, e um similar ao crocodilo, mas com focinho de formato diferente. As aves, é claro, nós sacerdotes da Fênix polidamente recusamos. Quanto às serpentes, havia algumas muito temidas, principalmente uma que tinha chocalho no rabo; não sabíamos se eram tão mortíferas quanto as víboras egípcias. Mas o animal mais temido pelos nativos era um felino grande, semelhante aos leopardos, ao qual davam o nome de jaguar.
Pela posição das estrelas, sabíamos que estávamos muito mais ao sul do que o lugar onde deveríamos ir. Pois, em nossas visões, como que para nos orientar, sempre víamos claramente que as estrelas estavam mais ou menos na mesma posição que no Egito, indicando que nosso destino estava bem mais ao Norte. Além disso, as visões mostravam cidades com casas, templos e outras construções de argila e pedra, enquanto aqueles nativos moravam em choças de palha. Seguimos costeando aquela terra, sempre na direção norte. Eventualmente, encontrávamos novos grupos de nativos, com quem fazíamos aquele comércio rudimentar.
Um incidente lamentável aconteceu quando alguns de nossos navegadores fenícios faziam uma dessas visitas comerciais a uma aldeia nativa. Até então, os contatos tinham sido tão pacíficos, que eles tinham levado algumas das mulheres, curiosas para conhecer aquele novo mundo. Mas, de repente, a aldeia foi furiosamente atacada por uma tribo inimiga. Alguns dos marujos foram capturados; outros conseguiram escapar e se refugiaram em uma ilha, mas não tinham como voltar aos navios sem serem vistos pelos atacantes. Usando então os espelhos que tinham levado para comerciar, fizeram sinais luminosos, até que, dos navios, percebemos o que tinha acontecido.
Despachamos os mercenários gregos para resgatá-los. Os inimigos estavam em grande número, mas isso não era problema para os gregos, acostumados a lutar contra exércitos muito maiores. Além disso, as armas de madeira e pedra daqueles nativos não podiam competir com as espadas, lanças e armaduras de ferro dos gregos. Conseguiram resgatar os refugiados, mas também descobriram, para nosso grande horror, os restos meio devorados dos que tinham sido capturados.
Depois disso, decidimos apressar a viagem rumo ao Norte. A costa se curvou por algum tempo para o Leste, mas depois de certo ponto voltou-se para o Oeste, e assim permaneceu por meses. Passamos pelos estuários de muitos rios, inclusive dois que nos lembraram o Nilo: um pelo delta, e outro pela largura e volume caudaloso. Finalmente, percebemos que, ao navegar para o Oeste, o Sol estava novamente à nossa esquerda. Pouco depois, começamos a encontrar as primeiras aldeias com construções de pedra. Fazendo contato, depreendemos que, seguindo nosso caminho, encontraríamos cidades maiores.
Continuamos a seguir na direção Norte, embora com várias mudanças de direção, por ser a costa fosse bastante sinuosa. Entramos no que parecia ser o fundo de um golfo, e finalmente, em uma ilha dentro de um pântano costeiro, encontramos uma grande cidade. As casas eram de argila, e os monumentos feitos de grandes pedras trazidas das montanhas próximas, pois não havia pedreiras no local. Dentro da cidade, havia templos, praças e diversos monumentos, destacando-se uma grande pirâmide. Ainda que não tão grande quanto as maiores pirâmides egípcias, mostravam que seus construtores, tal como nossos antepassados, dominavam as técnicas de edificar com blocos gigantescos de pedra, trazidos de longe.
Foi consenso que havíamos chegado a nosso destino. Nossos lingüistas trabalharam com afinco, e, em pouco tempo, conseguimos um grau razoável de entendimento do idioma local. Ajudou bastante o fato de que a escrita deles usava hieróglifos como a nossa, de tal forma que o significado de muitos símbolos podia ser deduzido de sua aparência. Assim, soubemos que aquele povo denominava a si mesmos as pessoas, como acontece com muitos outros povos; mas eram conhecidos dos povos vizinhos como Povo da Borracha, sendo esta uma substância de notáveis propriedades. Extraíam de uma árvore a seiva leitosa, que depois de defumada se tornava sólida, mas muito elástica e impermeável. Pela propriedade impermeável, usavam-na para peças de roupa e calçados; mas o uso mais importante, pela elasticidade, era para fazer bolas saltadoras, usadas em um jogo vigoroso, em que tinham que passar as bolas por um arco suspenso, impulsionando-as apenas com os cotovelos e nádegas. Os jogadores usavam roupas protetoras, e mulheres também podiam jogá-lo; após os jogos, era comum acontecerem rituais de fertilidade, não muito diferentes dos que adotávamos em nossa Ordem.
Alimentavam-se principalmente de um grão amarelo, que dava em espigas bem maiores que as do trigo. Transformado em farinha, podia ser usado de forma semelhante, para fazer pães e outras comidas. Atribuíam a esse grão caráter sagrado, dizendo ter brotado do cadáver do Homem das Colheitas, que dera a vida para que seu corpo se transformasse em alimento dos homens. Achamos essa crença notavelmente semelhante a mitos de vários povos conhecidos, inclusive com nossa crença de que Bennu se imola pela Humanidade.
Os animais eram semelhantes aos que havíamos conhecidos nas partes meridionais daquele mundo. O jaguar, ali chamado por outro nome, era reverenciado como animal sagrado, com muitas representações nos monumentos; os sacerdotes mais importantes pareciam ser aqueles que cultuavam o jaguar, o que encantou as sacerdotisas de Bast que tinham vindo conosco. Muitas estátuas e estatuetas representavam homens-jaguar, com bocas viradas para baixo, olhos amendoados e testas fendidas como os machos da espécie. Os feiticeiros desse culto chamavam os jaguares de nagual, isto é, espíritos companheiros que os protegiam do mal, e permitiam que se movimentassem entre este e o Outro Mundo, tal como o jaguar se move silenciosamente entre cavernas, árvores e a água. Dizia-se até que esses feiticeiros eram capazes de se transformar no animal; vendo as posturas que assumiam quando entravam em transe, chegávamos a imaginar que a transformação fosse real, principalmente quando fumamos as ervas mágicas de que, tal como nós, esse povo dispunha.
Como cachorros eram animais comuns nessa terra, embora de raças diferentes das que conhecíamos, procuramos saber se não existia um deus canino, semelhante a Anúbis. Disseram-nos que, de fato, o cão era de certa forma sagrado, pois tinha sido criado pelos deuses para servir aos homens, e quando alguém morria, seus cães eram sacrificados, para que acompanhassem o dono no Outro Mundo. Mas, exatamente por ser sagrado, era um alimento apreciado, pois acreditavam que sua carne tinha qualidades medicinais e espirituais. E, como aquele povo não dispunha de bestas de carga ou de montaria e tinha que empreender a pé todas as viagens, os cães eram valiosos companheiros de viagem, por serem uma comida que acompanhava espontaneamente os consumidores.
Como os povos mais ao Sul, acharam muito curioso que houvesse entre nós pessoas brancas e negras. Como acontecia com os demais povos daquele lado do oceano, os homens tinham muito pouca barba, e acharam bastante estranhas as barbas dos gregos e fenícios. Pediram a um dos fenícios, que tinha a barba mais longa, que posasse para o alto-relevo de uma estela. Mas os mais solicitados pelos escultores foram os servos negros, que retrataram em várias cabeças colossais.
Apenas quando conseguimos ganhar mais confiança deles, ficamos sabendo que tinham outras duas ordens de sacerdotes que até então não tínhamos encontrado, aparentemente ainda mais poderosos e respeitados: o Clã da Águia e o Clã da Serpente. Disseram-nos também que o líder do Clã da Águia nos observava desde nossa chegada, para se certificar de que éramos os estrangeiros que esperava, e que, tendo-se certificado disso por vários sinais, nos esperava para um encontro.
Foi com grande emoção que adentramos o templo onde Águia de Fogo nos esperava, pois esse era o nome do líder. Ficava na parte da cidade ao norte da Grande Pirâmide, na qual só esses altos sacerdotes podiam entrar. Para nossa surpresa, uma estela na entrada do templo representava um animal desconhecido, mais estranho que o animal de Set: em parte serpente, em parte águia, e em parte figura humana. Enquanto o admirávamos, Águia de Fogo apareceu e disse:
— Chamamo-lo de Serpente Emplumada. Representa a Poderosa Força das Trevas, encarnada na Serpente, absorvida pela Força da Luz, trazida pela Águia, e sintetizada com ela, canalizando para o Homem a Força do Universo.
Águia de Fogo parecia muito velho, e ao mesmo tempo vigoroso. Convidou-nos a nos assentar em volta dele e a fumar ervas mágicas. Em seguida, narrou sua história; embora nosso domínio do idioma dele ainda fosse rudimentar, de alguma maneira as ervas nos fizeram entender sem problemas a narrativa. Disse Águia de Fogo:
— A Águia e a Serpente já existiam quando o Tempo começou, e quando as espigas douradas brotaram dos ossos do Homem das Colheitas, e quando as palavras começaram a ser escritas, e quando as cidades começaram a ser erguidas. Por muitos e muitos Ciclos, seus clãs combateram pelo domínio desta cidade, e das outras cidades desta terra. Há pouco mais de um Ciclo atrás, quando eu era muito jovem, o Clã da Serpente tinha conseguido nos expulsar desta cidade; para escapar dos guerreiros deles, tivemos que fugir para as montanhas, onde tínhamos que caçar os cães selvagens e os lagartos, pois não podíamos nos alimentar dos pássaros. Às vezes comíamos serpentes, mas outras vezes elas é que nos surpreendiam mortalmente.
Assim, Águia de Fogo confirmou sua idade avançada, pois já tínhamos aprendido que um Ciclo era um período de cinqüenta e dois anos, ao fim dos quais voltavam a coincidir os dois calendários daquele povo. O calendário civil tinha o ano solar de 365 dias, como o dos egípcios. O calendário sagrado tinha o ano de 260 dias, não só o tempo entre duas passagens do Sol pelo zênite naquela região, como também a duração média da gestação humana, da primeira menstruação perdida até o nascimento. E o início do Tempo a que ele se referia era a Data Inicial da Contagem Longa, o sistema que usavam para contar períodos maiores que o Ciclo. Vimos na Data Inicial mais um sinal do Princípio Imanente, pois coincidia com época em que o Rei Escorpião unificou o Egito.
Continuou Águia de Fogo:
— Tentávamos pedir socorro à Águia Divina, nosso nagual, recorrendo às ervas mágicas, até que estas também acabaram. Então meu avô, o mais sábio feiticeiro, líder de nosso pequeno grupo de sobreviventes, disse que, já que não tínhamos mais as ervas, deveríamos recorrer aos Cogumelos Mágicos. Esses cogumelos são ainda mais poderosos que as ervas quando se trata de entrar em comunicação com os Espíritos da Terra, mas, tomados na quantidade errada, na hora errada ou da maneira errada, podem ser veneno mais potente que o da cobra de chocalho, capaz de trazer morte muito mais dolorosa. Mas não nos restava alternativa; e, não sei se depois de minutos, horas ou dias de alucinações, pousou entre nós o mais resplandecente dos pássaros: uma enorme águia dourada, que parecia vir de muito longe.
Segundo disse, a águia dourada caçou impiedosamente todas as serpentes da vizinhança, e trouxe para eles coelhos e outros pequenos animais. Depois que passou o efeito dos cogumelos, constataram que a águia dourada continuava com eles: não era uma visão ou alucinação. E assim permaneceu com eles por algum tempo, até que recuperassem plenamente as forças.
Até que um dia a águia dourada voou para o Noroeste, e pousou em um arbusto distante, com uma serpente no bico. Os fugitivos foram até ela, que abandonou a serpente, e voou para outro arbusto, onde pousou carregando outra serpente. Isso se repetiu até o por do sol. No dia seguinte, tudo se repetiu; a águia parava, de tempos em tempos, apenas o suficiente para descansarem e fazerem as refeições. Concluíram, então, que a águia os conduzia rumo ao Noroeste.
Grande foi o temor daqueles membros do Clã, pois teriam primeiro que vencer fatigantes caminhos montanhosos. Depois, chegariam aos desertos do Norte, onde habitavam os ferozes chichimecas, o Povo Cão, guerreiros temíveis que pintavam os corpos cobertos apenas com tangas mínimas; que eram exímios no manejo das facas de obsidiana, e de flechas e lanças com pontas dessa pedra afiada; que cortavam os couros cabeludos e as genitálias dos inimigos, para usá-los como ornamentos; e cujas mulheres, ao darem à luz, não paravam para repousar um único dia.
Mas eles passaram pelo território chichimeca sem confrontos. Os mais experientes sentiam que o Povo Cão os vigiava silenciosamente, confundindo-se com o deserto, mas em nenhum momento se mostraram. E assim chegaram à pior parte do deserto, conhecida como Caminho dos Demônios, onde nem os chichimecas se aventuravam. Mas nenhum demônio apareceu; apenas muitas serpentes, e dessas a águia cuidou.
Mais de três luas se passaram. Aproximavam-se então dos territórios dos Bárbaros do Norte, que moravam em cavernas ou tendas, e eram conhecidos pela aversão aos estrangeiros, que toleravam apenas para realizar comércio. Os bárbaros trocavam turquesas por algumas das mercadorias que o Povo da Borracha podia oferecer, como as bolas de borracha para jogos, mas aquele grupo praticamente nada tinha que pudessem comerciar.
Antes que saíssem completamente do deserto, chegaram ao sopé de uma grande montanha. Desta vez, a águia dourada parou por longo tempo, como se esperasse algo. Finalmente, alçou para a crista da montanha, e desapareceu do outro lado. Minutos depois, ouviram primeiro um silvo, depois um ruído cada vez mais alto. Um bólido em chamas surgiu da extremidade oposta do céu, aproximou-se perdendo altura, e, quando já achavam que os iria atingir, passou pela crista da montanha, e explodiu do outro lado.
O céu inteiro pareceu se inflamar, e um vento escaldante os arremessou ao chão. Quem olhou para o fogo ficou cego, e quem não tapou os ouvidos ensurdeceu. Permaneceram atordoados por muito tempo, até que um grupo se recuperou o bastante para escalar a montanha, e ver o que tinha acontecido do outro lado.
Quando lá chegaram, viram que a já rala vegetação do deserto tinha sido calcinada até o horizonte. Da águia dourada, nenhum vestígio, assim como de qualquer outro animal. E no flanco da montanha, onde parecia ter sido o ponto de impacto, abria-se escura e profunda caverna. O grupo já tinha passado por provações demais, e tinha visto prodígios demais, para deixar de atender ao que parecia uma voz dentro de suas cabeças, chamando-os a entrarem na caverna.
Permaneceram por não se sabe quanto tempo dentro da caverna; segundo Águia de Fogo, “o que vimos lá dentro não pode ser descrito com meras palavras”. Finalmente, saíram e voltaram ao lado sul da montanha. Vários dos companheiros que tinham ficado já haviam morrido; os que restavam, cegos, queimados ou muito feridos, não tinham condições de empreender a viagem de retorno. O avô e o pai de Águia de Fogo, que sabiam como obter venenos das plantas do deserto, usaram seu conhecimento para enviá-los para junto da águia dourada, de forma rápida e indolor.
Em contrapartida, os que tinham entrado na caverna se sentiam revigorados, fortes, e com os sentidos muito mais aguçados do que antes. Assim, quando atravessaram o deserto, eles mesmos surpreenderam e mataram as serpentes no caminho, e não tiveram dificuldade em caçar o pouco alimento de que necessitavam. E quando entraram de volta no território do Povo Cão, logo surpreenderam uma patrulha chichimeca, graças à audição e ao olfato aguçados. Mataram alguns, puseram a correr os demais, e se armaram com as próprias armas deixadas pelos inimigos. Voltaram a combater os chichimecas mais duas vezes, e em ambas a pontaria e a destreza recém adquiridas lhes deram fácil vitória.
A notícia se espalhou rapidamente, e à medida que se aproximavam da terra natal, mais compatriotas fugitivos se juntavam a eles. Finalmente, chegaram às portas da cidade natal, já à frente de um pequeno exército. Em breve e feroz batalha, retomaram a cidade ao Clã da Serpente. Dos sobreviventes deste Clã, parte fugiu rumo às florestas do Sul. Outra parte se submeteu, dispondo-se a servir à Águia, desse dia em diante. O avô do narrador adotou o nome de Águia de Fogo, e se tornou rei e sumo sacerdote do país. Para comemorar a nova união dos Clãs, criou o sagrado símbolo da Serpente Emplumada.
Neste ponto, Águia de Fogo terminou a narrativa, dizendo:
— Tudo isso aconteceu há mais de um Ciclo e, desde então, os membros do nosso grupo partiram em todas as direções. Alguns foram para o Sul e o Norte próximos, levar a Mensagem a povos que constroem suas primeiras cidades. Outros ao Sul distante, à procura de povos conhecidos apenas de rumores, e outros ao Norte distante, para que as tribos nômades não venham a profanar o Lugar Sagrado. E finalmente restei apenas eu, que sucedi a meu avô e meu pai como rei deste país, como o terceiro Águia de Fogo. Coube a mim esperar que chegassem do outro lado do oceano, para que levem a Mensagem ao resto do mundo.
Águia de Fogo disse então que a Mensagem não podia ser passada de boca para ouvido, mas apenas de espírito para espírito, e para isso era preciso beber o chá dos Cogumelos Mágicos. Como esse chá era extremamente perigoso, deveríamos escolher três dentre os mais sábios, que fossem experientes nas artes mágicas, e resistentes aos venenos. Escolhemos os três que não só tinham provado muitas ervas mágicas diferentes, mas que haviam se imunizado ao longo dos anos, com pequenas doses de venenos de escorpiões, sapos e víboras. As vestes dos três foram marcadas com o sinete de Águia de Fogo, que imprimiu um pássaro e os hieróglifos “três” e “rei”. Em seguida, retiraram-se Águia de Fogo e os três para uma câmara no interior da pirâmide, onde tomariam o chá.
Poucas horas depois, Águia de Fogo reapareceu, e disse que os três haviam sobrevivido, mas ainda dormiriam por muitas horas, até se recuperarem. Finalmente, emergiram da pirâmide, surpresos de que tão pouco tempo se houvesse passado. Declararam então que a Missão estava cumprida, e que deveríamos partir de volta ao Egito.
Muito bem abastecidos pelo Povo da Borracha, zarpamos na direção do leste. Ventos favoráveis nos impeliram de volta através do oceano, em poucas semanas. Ultrapassamos algumas fortes borrascas; passamos pelo Mar dos Sargaços, sem que nossas naves se enredassem naquelas estranhas plantas; e pelo Mar de Lama, sem que encalhassem nos bancos de areia. Finalmente, encontramos o resto da frota na colônia fenícia combinada, no Norte da África. Atravessando os Pilares de Hércules e o Mediterrâneo, chegamos ao Delta do Nilo, três anos depois de nossa partida.
Os três que tinham recebido a Mensagem ficaram conosco uns poucos anos, preparando-nos para os milênios de domínio estrangeiro que não demorariam a começar, pois profetizavam que a Dinastia Saíta seria a última verdadeiramente egípcia. Depois, um deles seguiu para a Grécia e, durante alguns anos, conviveu com os filósofos de lá, talvez transmitindo a Mensagem a alguns deles. Depois, foi para uma cidade da Itália, encontrar-se com os que planejam um reino sem rei, tendo a Águia como símbolo. E finalmente, para a Gália, onde, crêem alguns, Bennu voltará dentro de alguns séculos.
Os outros dois se foram com os fenícios, e da Fenícia para as terras babilônias, onde conheceram profetas judeus exilados. Chegaram até a Pérsia, onde acompanharam por alguns anos o grande mago Zartosht, venerador das Aves e do Fogo. Depois, um seguiu para a Índia e o outro para a China. A partir daí, pouco se sabe deles. Mas dizem que o primeiro foi conselheiro dos príncipes Mahavira e Gotama, que se tornaram santos homens. E que o segundo, depois de algum tempo com um filósofo chamado de Velho Mestre, acompanhou o rival deste, o afamado Mestre Kong. Se a esses todos passaram algo da Mensagem, não sabemos.
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